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Histórias que a cidade não conhece: a invisibilidade dos sem-abrigo em Ponta Delgada

Todos os dias passamos por pessoas que não conhecemos. Algumas cruzam o nosso caminho como qualquer outra. Outras permanecem no mesmo lugar. Encostadas a uma parede, sentadas num banco, abrigadas sob uma paragem de autocarro. Estão ali há dias, semanas ou anos. Tornaram-se parte do cenário urbano de Ponta Delgada. E, pouco a pouco, deixaram de ser percebidas como pessoas.

Chamamos-lhes “sem-abrigo”. Mas esse nome diz quase nada. De acordo com informação publicada na SIC Notícias, o número de pessoas nesta condição tem aumentado nos Açores desde a pandemia, sendo Ponta Delgada o concelho mais afetado. Em 2022, um estudo regional identificou 493 pessoas nessa situação em toda a Região Autónoma, cerca de 105 apenas no concelho.

São números que indicam presença, mas não contam histórias. O estudo “À Margem – A Condição de Sem Abrigo nos Açores”, desenvolvido pela Associação Novo Dia, recorda que esta condição não surge de forma súbita, mas resulta de trajetórias marcadas pela perda de recursos e pela ruptura de laços sociais. A rua raramente é o início. É o ponto onde várias perdas se acumulam.

Segundo a Agência LUSA, um levantamento nas freguesias urbanas de Ponta Delgada revelou que, entre 303 pessoas inquiridas, 76 estavam há dez ou mais anos nessa condição. Mais de um terço não possuía qualquer apoio familiar. Muitas encontravam-se afastadas do mercado de trabalho há longos períodos.

Ao passar por estas pessoas, sabemos quase nada: não sabemos quem foram; não sabemos o que perderam; não sabemos o que ainda tentam preservar.

O próprio estudo “À Margem” sublinha que a falta de habitação vai além da ausência de um teto, configurando muitas vezes a forma mais grave de exclusão habitacional. Quando a casa desaparece, desaparece também o lugar onde alguém se sente parte de algo. As razões que conduzem a esta condição são diversas. De acordo com informação publicada na SIC Notícias, o consumo de álcool ou drogas, doenças mentais e fragilidades familiares surgem entre os fatores frequentemente associados à vida na rua, ainda que o fenómeno esteja também profundamente ligado à exclusão habitacional e ao acesso limitado à habitação adequada.

Não se trata de uma única escolha. Nem de uma única causa. Trata-se de percursos. Neste contexto, há trabalhos em curso que procuram manter o vínculo humano onde ele se fragilizou.

De acordo com a Câmara Municipal de Ponta Delgada, o município tem vindo a assegurar a continuidade de respostas como a “Equipa de Rua Fora d’Horas”, desenvolvida em parceria com a Associação Novo Dia. A intervenção, realizada por profissionais especializados, garante apoio direto durante os fins de semana, complementando o acompanhamento prestado pelos serviços municipais ao longo da semana. Ainda segundo informação institucional da Associação Novo Dia, estas equipas desenvolvem um trabalho de proximidade que inclui apoio psicossocial, cuidados básicos e encaminhamento para serviços de saúde e alojamento, assente numa abordagem humanizada. Mais do que resolver de forma imediata, procuram criar condições para que as pessoas não fiquem totalmente desligadas da comunidade.

Outras estratégias também têm sido implementadas, entre elas o modelo Housing First, apontado por peritos regionais como uma das abordagens mais eficazes na mitigação desta realidade. De acordo com notícia publicada na LUSA, o programa, que prioriza o acesso à habitação como ponto de partida para a reintegração, permitiu retirar duas pessoas da rua em Ponta Delgada no seu primeiro ano de aplicação.

Segundo o Correio dos Açores, a autarquia tem igualmente desenvolvido parcerias com instituições regionais para reforçar respostas na área da emergência social e da habitação, incluindo a criação de estruturas de acolhimento e acompanhamento psicossocial. De acordo com informação recentemente divulgada na comunicação social, está também previsto para 2026 o início do processo de construção de um novo centro de acolhimento temporário para pessoas em situação de sem-abrigo, após a cedência de um terreno pela Câmara Municipal de Ponta Delgada ao Governo Regional. A iniciativa procura reforçar a capacidade de acolhimento e resposta institucional a uma realidade que exige soluções articuladas.

Nada disto resolve o problema de forma definitiva. Mas revela que existem esforços, articulações e tentativas de resposta.

Ao mesmo tempo, uma carta aberta subscrita por pessoas em situação de sem-abrigo, referida em notícia publicada no Correio dos Açores, chamou a atenção para as dificuldades acrescidas durante o inverno e para a necessidade de espaços protegidos com condições básicas.

O apelo não foi de acusação. Foi de existência. O estudo “À Margem” lembra que a exclusão habitacional está ligada a fatores como acesso ao trabalho, políticas sociais e disponibilidade de habitação. A resposta não depende de um único agente, nem de uma única decisão.

Ao passar por alguém que vive na rua, sabemos menos de 1% da sua história. Talvez não nos caiba julgar. Talvez nos caiba apenas reconhecer que existem. E que, mesmo quando não os vemos, continuam a fazer parte da cidade.

*Imagem ilustrativa.

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