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Crónica: How I Fell in With the Portuguese Café

Veio tudo por serendipity, como a Carol gosta de dizer, em inglês. Ou por pura fortuitousness (fortuidade), se eu me pudesse safar usando um sinónimo latinizante, mais clássico mas desengonçado – como é típico dos falantes das línguas românicas, quando sabem que em inglês há uma palavra mais simples que no entanto sempre lhes escapa na ponta da língua.

Eu tinha sido convidado a contribuir com a leitura de uns quantos contos, muitos dos quais estava ansioso por ler porque eu próprio os tinha escrito. Ia lê-los durante uma sessão do clube de leitura da Biblioteca Municipal da Ribeira Grande, dirigida pela minha antiga professora do secundário, no passado outubro.

Tinham-se esquecido de me informar, ou antes eu me tinha esquecido de lhes perguntar, a que horas exatamente iria decorrer a sessão. Tudo o que sabia era que estava programada para decorrer na última quarta do mês. Também não era importante, já que, fosse como fosse, não tínhamos aula às quartas. Tinha o dia livre e podia desperdiçá-lo como bem entendia.

Compareci na biblioteca de manhã, algo auspiciosamente. Perguntei onde podia encontrar a Professora Judite Barros. Embora o nome não soasse estranho, as senhoras atrás do balcão da receção pareciam tão perdidas como eu e apontaram, algo mecanicamente, para uma divisão à esquerda, com a porta ligeiramente aberta. Conheciam a Carol, que acabava de chegar, e deduziram que a minha presença ali devia ter necessariamente algo que ver com ela.

Entrei. Fiquei surpreso ao ser cumprimentado em inglês, por outra senhora que claramente não era a Judite. Era uma sala de teto alto, aprovisionada com algumas mesas de sala de aula e assentos aos pares, um quadro branco, e uma secretária de docente situada numa plataforma de madeira. Visto de dentro, a sala parecia que tinha sido improvisada ao fechar parte do rés-do-chão com paredes desdobráveis de plástico que tocavam no teto. Vi-me lançado, algo súbita e embaraçosamente, de volta aos meus anos do secundário. E embora não se tratasse da minha antiga professora da secundária, ela perguntou se eu era estudante ou instrutor, algo que só contribuiu para a minha confusão.

Disse-lhe o que sabia e contei que estava ali por causa da sessão deste mês do clube. Ela obviamente não fazia ideia do que estava a falar mas teve a amabilidade de esclarecer alguns pontos: chamava-se Carol Tom, uma expat do Canadá; era a anfitriã do Portuguese Café da Ribeira Grande, uma comunidade linguística que operava no rés-do-chão da biblioteca e reunia instrutores e expats que desejassem aprender português. O nome até que me soou a qualquer coisa; já conhecia um rapaz dos Estados Unidos, Samuel Bither, que acredito ter estado afiliado com o Café em alguma capacidade (ou com algo parecido) e que tinha dado aulas de Inglês Profissional na Universidade.

A Carol contou-me como se tinha estabelecido nos Açores, mencionou um ou dois projetos gorados, frustrados pela burocracia labiríntica que entre nós já se converteu num cliché, e falou do seu derradeiro desejo de proporcionar aos expats radicados nos Açores as ferramentas necessárias para a boa aprendizagem do português. Acabara por se dar conta de que a sua experiência com o português falado era na verdade a de muitos outros – uma fita sem costuras de murmúrios e palavras, que não se sabia onde começavam nem acabavam, apesar do léxico louvável e da gramática respeitável. Achei muito apelativo. A sua persistência em particular inspirou-me. Ela própria me chama de teimoso de vez em quando, mas já adquiri o hábito de responder que a persistência não é mais do que a teimosia de um cavalheiro – ou de uma senhora.

 Disse-me que eu podia ficar, se quisesse. Dado que tenho um background em linguística, assim como um certo jeito para as línguas, e o dia praticamente livre, resolvi que podia ser útil.

Naquele primeiro dia, sentei-me numa mesa diante de um trio de expats: a Melissa, a quem me refiro, com afeição, como “grandma” (“avó”), tinha já algumas bases muito significativas de português, dado que já tinha vivido no Brasil com o marido, o Mark; o Bryan tinha experimentado a língua através do Duolingo; o Tiger (Anthony) não sabia muito de português, mas a sua persistência – esta teimosia de cavalheiro a que deveríamos todos aspirar – moveu-me e em breve o vindicará.

Eles – a Carol, o Mark, a Melissa, o Bryan, a Terry, o Tiger, a Lurdes, e muitos outros a quem peço desculpas se os tiver omitido – provaram ser homens e mulheres exemplares, dispostos a tolerar o meu desconforto inicial de novato e de peixe fora de água. E os meus agradecimentos sobretudo à magistra Judite, sem cuja intercessão, ainda que acidental, eu não teria mergulhado no Café, nem podido provar que não sou totalmente destituído de algum talento para a escrita.

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