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Letras Lavadas (e polidas)

Quem entra é logo confrontado com o layout atípico. Quem estiver mais atento dar-se-á conta das ranhuras que percorrem a madeira das mesas em que se exibem os livros. Se vir um dos funcionários reorganizar alguns deles, empilhá-los e retirar subitamente uma secção, como se fosse uma fatia de bolo, reconhecerá que, na verdade, o que engana os sentidos, ao aparentar a coesão e a unidade de uma mesa, é um agregado organizado de cubos.

Assim como cubos também são muitas das cadeiras e cubos são as estantes. As próprias lâmpadas são cubos deslocáveis e portáteis que pendem do teto.

É um universo em que, como os livros, também os cubos se movem e se mobilizam. Patrícia Carreiro trabalha no estabelecimento desde a sua fundação e viu-o tornar-se parte da paisagem não só arquitetónica mas social do Largo da Matriz, em Ponta Delgada. Segundo a Patrícia, os cubos conferem ao espaço um layout dinâmico e versátil, que se adapta às circunstâncias e às especificidades das atividades que se realizam quotidianamente.

Tendo eu passado no continente aqueles que corresponderam aos seus anos de infância, confesso que soube da existência da Letras Lavadas apenas em meados de 2023. Preparava-me para voltar a matricular-me na universidade, regressado às ilhas. Descobri que se tratava de uma livraria independente sediada no centro da cidade e já com alguma repercussão desde os quatro anos que mediavam entre a sua fundação e o meu regresso. Com forte foco regional e insular, o seu perfil intelectual pauta-se pela valorização da criação contemporânea e dos novos autores. Um dos primeiros artigos que me chamaram a atenção, além dos livros, claro, foi o livro de honra perpetuamente aberto, em que os visitantes podem participar do fenómeno criativo — escrevendo, garatujando ou desenhando as suas impressões sobre o espaço, ou tão simplesmente deixando o seu carimbo de presença, como quem deseja dizer: “Estivemos aqui.”

A livraria tem por principal missão a de fomentar o gosto pela leitura e, ainda nas palavras da Patrícia, “convertê-la numa atividade rotineira”. Muitos dos que a frequentam são turistas que procuram os clássicos na língua original ou no inglês enquanto língua franca. William Morris, Jane Austen, Dickens, Tolstoy, Kafka e Baudelaire convivem e dialogam num além-túmulo literário com Vitorino Nemésio, Antero de Quental e Natália Correia. O seu catálogo é diverso, sendo a editora que a precedeu, e com a qual partilha o nome e a missão, uma editora generalista no seu escopo.

Mas, em grande parte, a livraria prima pelo perene diálogo sobre o que significa ser açoriano e ilhéu; a produção literária em expressão açoriana goza de clara precedência, em número e em destaque. Segundo a Patrícia, “a maior fatia das vendas é de autores açorianos, até quando publicados por outras editoras”, e destaca a secção infantil. Bruno Marques, também funcionário, relata como dialogou e privou durante horas com uma senhora, freira, sobre um exemplar de Conventos Franciscanos nos Açores no Século XXI. Micaela Pavão descreve-nos como dialogou com uma cliente de Cabo Verde, que compartilhou histórias e vivências que lhes permitiram estabelecer um paralelo entre a insularidade açoriana e a cabo-verdiana.

Inclusive quando os autores não são açorianos nem ilhéus, os temas e as narrativas recuperam as ilhas e focam o holofote nelas. Encontramos exemplos em As Ilhas Desconhecidas, de Raul Brandão, e Mês de Sonho, que reúne as impressões do famoso etnólogo e dialetologista continental José Leite de Vasconcelos – ambos relatos de viagem encomiásticos, escritos no seguimento da chamada Visita dos Intelectuais, entre maio e junho de 1924. Refiram-se também a Nova Antologia de Autores Açorianos, de 2022, e 9 Poetas 9 Línguas, de 2023, ambas da autoria da Professora Helena Chrystello. A estas duas identidades – a de açoriano e de ilhéu – a livraria também acredita estarem necessariamente vinculadas as ideias de lusofonia e de diáspora.

A semente que posteriormente espigaria para se converter na Letras Lavadas foi plantada em 2007, quando José Ernesto Rezendes, fundador da tipografia Nova Gráfica, comprou a empresa Publiçor, Lda. Nascido em junho de 1955, Ernesto Rezendes desembarcou em São Miguel acompanhado da família, aos seis anos de idade. Procuravam melhores condições de vida, assim como as oportunidades que a exígua ilha de Santa Maria não podia oferecer. Começou a trabalhar aos onze. Aos quinze, em vez de seguir as passadas do pai, que emigrou para o Canadá, iniciou o trajeto profissional que o consagraria, indissoluvelmente ligado às artes gráficas, na Tipografia Insular. Aos vinte e três já era diretor de produção gráfica. Rezendes relata que nessa altura contava juntar-se ao pai, uma vez concluído o serviço militar. O prospecto da emigração não se concretizou precisamente porque acabou por aceitar a proposta de dirigir a produção da Impraçor, à época a maior empresa gráfica da região. A empresa encontrava-se numa fase de transição, estando a substituir a tipografia tradicional pela de offset, em que a tinta se transfere de uma chapa de metal para um cilindro revestido de borracha e só depois para o papel. Dirigiu, em simultâneo, as oficinas do Açoriano Oriental até 1982. A Nova Gráfica seria inaugurada em setembro desse ano. Tendo-se reformado em 2018, a gerência seria confiada, quatro anos mais tarde, aos filhos, Bruna e Milton Resendes (com S), no âmbito das celebrações do 40º aniversário da empresa.

A editora surgiria em outubro de 2011 como uma chancela editorial da Publiçor revigorada, que integra a Nova Gráfica. A livraria em si abriu portas em julho de 2019. Nas palavras do próprio Ernesto Rezendes:

 “Damos sempre preferência a autores dos Açores ou que escrevam sobre os Açores e agora estamos a dar um passo muito maior no mercado internacional  (…)”.

A 27 de fevereiro de 2026, a editora lançou uma coletânea, coligida por Diniz Borges, de obras de Natália Correia que este verteu para o inglês sob o título Suspended Worlds (Mundos Suspensos). Borges é tradutor e diretor editorial da Bruma Publications da Fresno State University Press, parceira da Letras Lavadas e uma das instituições responsáveis pela internacionalização desta. Henrique Levy, que também foi convidado, lançou Bento de Goes – A Long Journey Through Central Asia, sobre o explorador açoriano e o primeiro europeu a chegar à China por via terrestre a partir da Índia, viagem que permitiu demonstrar que a China e o semi-mítico reino do Cataio eram o mesmo país. O evento contou igualmente com a presença de Ângela Almeida, escritora e investigadora integrada do Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias. Às apresentações sucedeu uma tertúlia acerca da arte da tradução, moderada por Clife Botelho, do Diário da Lagoa, intitulada “Entre Ilhas e Línguas: A Tradução como Ponte, Memória e Horizonte”. Esta contou com a presença de José de Andrade, diretor regional das Comunidades, que debateu com os demais o papel da diáspora na criação e execução de projetos editoriais com escala internacional.

 A livraria colabora não só com autores açorianos mas com aqueles que procuram avançar a causa literária e, em particular, a causa da literatura lusófona e açoriana. Deixo abaixo o testemunho da Patrícia acerca de Rafael Gallo, autor brasileiro contemplado com o Prémio Saramago pela sua 12ª edição em 2022, que visitou a biblioteca em fevereiro de 2025, quando a livraria organizava mais uma sessão do seu clube de leitura:

Retomo Helena Chrystello, tanto por razões que respeitam ao mérito intrínseco dos serviços que prestou, como por motivos do foro mais pessoal. Licenciada em Estudos Portugueses e Franceses, com mestrado em Relações Interculturais pela Universidade Aberta, Chrystello lecionou português na Escola Básica 2,3 da Maia, na Ribeira Grande, onde coordenou o Departamento de Línguas e foi minha professora. Foi Vice-Presidente da Associação Internacional dos Colóquios da Lusofonia (AICL). Em parceria com Rosário Girão, publicou a Antologia Bilingue de Autores Açorianos Contemporâneos, assim como a Antologia de Autores Açorianos Contemporâneos, em 2 volumes, e 9 Ilhas 9 Escritoras. Publicou ainda a Coletânea de Textos Dramáticos de 5 Autores Açorianos, em parceria com Lucília Roxo, também minha professora do terceiro ciclo. Através da Letras Lavadas, além da Nova Antologia de Autores Açorianos9 Poetas 9 Línguas, também publicou, postumamente, uma obra de ficção, O Silêncio da Paixão, cujo manuscrito, datado de 1976, foi descoberto entre os seus papéis pelo marido, o luso-australiano e também ele açoriano honorário J. Chrys Chrystello, e publicado em 2024, passadas quase cinco décadas.

A livraria ainda conta com um podcast: Há Conversa na Livraria, em que participam autores portugueses do continente; e um Sarau de Poesia, com datas que podem ser consultadas nos seus canais oficiais.

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