
Numa pequena ilha no meio do Atlântico, onde toda a gente se conhece e nada passa despercebido, expressar quem realmente és pode ser um ato de coragem. Em Ponta Delgada, São Miguel a pressão para se conformar entranha-se profundamente, numa terra moldada por tradição, pela proximidade da sua comunidade e por um olhar da sociedade que impõe a permanência dentro dos padrões. Para os membros da comunidade LGBTQIA+ que aqui vivem, o simples ato de se vestir para o trabalho, logo de manhã, pode carregar um peso que outros jamais considerariam.
Sanny fala exatamente sobre essa realidade. Para ele, em Ponta Delgada, “até mesmo alguém que esteja vestido de forma simples pode sofrer comentários homofóbicos”: então, para alguém tão expressivo visualmente com o Sanny, simplesmente andar na rua significa enfrentar a ameaça constante de ser alvo de comentários e até mesmo de agressão física. Apesar disso, continua fiel a quem é, porque “a alternativa seria mentir a si mesmo”. Com o tempo, a sua autenticidade se tornou numa forte inspiração: jovens que começaram o ensino secundário já entraram em contacto para dizer que ele é uma referência, provando que a visibilidade, mesmo em um ambiente desafiador, pode abrir portas para os outros.

Aurora é trans, não-binária, 23 anos, mestre em Psicologia Clínica e compartilha uma perspetiva semelhante. Ela descreve que vive uma vida dupla que muitas pessoas aqui conhecem bem: uma apresentação mais contida e controlada durante o horário de trabalho e uma expressão mais livre e autêntica após o anoitecer, em concertos, com amigos e em espaços que parecem mais seguros.
Para Aurora, a noite não é apenas lazer, é um território inabalável para a autoexpressão genuína. É nesse período que o corpo, a roupa, a voz e os gestos parecem encontrar menos vigilância e mais possibilidade de existência. Ela observa que o local de trabalho, apesar do seu potencial, raramente parece um espaço onde a identidade possa ser explorada com mais segurança, algo que acredita merecer uma discussão mais ampla. A sua experiência mostra como a liberdade de ser ainda depende, muitas vezes, do lugar, da hora e das pessoas à volta.
O que o Sanny e a Aurora têm em comum é a oposição de se abandonarem, mesmo quando o ambiente em que estão inseridos torna isso difícil. Para Aurora, ser fiel a si mesma é a forma mais honesta de amor próprio que conhece. Esse amor próprio, como bónus, atrai outras pessoas em jornadas semelhantes de autoconhecimento. “Não há nada mais bonito do que construir redes de apoio mútuo”, diz ela sobre as comunidades onde as pessoas param de representar a heteronormatividade e começam a expressar algo mais genuíno.
Sanny e Aurora carregam um desejo que, para a maioria das pessoas, pode ser considerado o mais simples e básico. Sanny quer que as pessoas vejam que ele não é agressivo. Por trás de uma aparência pouco convencional, é apenas uma pessoa com sentimentos. Aurora quer ser vista como mente aberta, presente e de alguém que tanto dá quanto recebe. Nenhum dos dois pede uma compreensão extraordinária, eles pedem para apenas serem vistos como plenamente humanos.
Artigo produzido por Ana Beatriz Rego, Anastasia Zinoveva, Dandara Duarte, Edna Ferreira, Inês Miranda, Jénifer Biagué e Tatiana Avelar










