
Podia ter sido uma tarde de sábado como qualquer outra, mas a natureza tinha outros planos. Foi no dia 14 de dezembro de 1996 que a vida dos habitantes da vila da Povoação mudou. Trinta anos depois, a memória dessa tarde continua a fazer parte da história coletiva do concelho. Mas como escreveu o autor açoriano Vitorino Nemésio, “A geografia, para nós, vale tanto como a história, e não é debalde que as nossas recordações escritas inserem 50% de relatos de sismos e enchentes” (1932, p. 57).
Em apenas 15 minutos, a forte precipitação transformou-se em correntes de água que entraram pela vila, fizeram transbordar ribeiras e provocaram deslizamentos de terra em várias freguesias do concelho. O fenómeno, típico das chamadas “cheias rápidas”, é recorrente na Povoação. As zonas mais afetadas incluíram a vila da Povoação e as freguesias do Faial da Terra e da Ribeira Quente. A força da água provocou destruição significativa em habitações, estabelecimentos, estradas, pontes e terrenos agrícolas.
Apesar de não ter atingido a dimensão trágica de outros episódios semelhantes na região, como as cheias da Ribeira Quente, ocorridas apenas um ano depois e que vitimaram 29 pessoas, o impacto material e social foi considerável. Famílias viram as suas casas inundadas ou destruídas. Comerciantes perderam negócios e fontes de rendimento. Até um jovem casal, que celebrava o seu amor através do matrimónio, viu o dia de sonho ser interrompido pela força da água, que arrastou cerca de 60 carros pela rua da Igreja abaixo.
Homens e mulheres que foram ali criados viram o seu lar cair em autênticas ruínas. O desespero tomou conta da população quando percebeu que havia pessoas dentro dos carros arrastados pela água. Naquele momento, a fragilidade do ser humano ficou exposta. Não havia diferença entre a ribeira e a estrada. Via-se apenas a cor barrenta da água, da lama, dos troncos, dos detritos e dos pedregulhos arrastados pela força da corrente.
Foi preciso lutar pela vida. Houve quem subisse aos telhados dos edifícios e até à paragem do autocarro para escapar à subida das águas. Mas os povoacenses são um povo marcado pela resistência. Quando tudo acalmou, bombeiros e população juntaram-se para fazer face ao desastre, e os trabalhos de limpeza começaram.
Além dos apoios do Governo Regional, chegaram do Canadá e dos Estados Unidos doações em dinheiro, roupa e bens de primeira necessidade, enviadas pelas comunidades portuguesas nesses países. Lúcia Amaral, conta-nos a sua particular experiência de uma mulher que estava prestes a dar à luz, no meio da desgraça.

Três décadas depois, as cheias da Povoação de 1996 não permanecem apenas no passado. Continuam presentes na memória, nos relatos e nas marcas deixadas em quem viveu aquele terror. Na Povoação, essa memória persiste. Não como um eco distante, mas como uma lembrança viva, que insiste em permanecer.
Fonte complementar: https://acores.rtp.pt/local/grande-reportagem-25-anos-cheias-povoacao-som/







