Leandro, fundador do Eh Pá Food, é um exemplo contemporâneo de empreendorismo emigrante marcado pela resiliência, a adaptação cultural e a visão estratégica. Tudo começou no Brasil, sua terra natal, em 2004, quando começou com sua esposa Milena a vender desde joias e semi-joias a roupas e roupas íntimas. Foi representante da Puratos, uma empresa multinacional na Europa, na área da alimentação.

Leandro já estava na área que tem mais venda no Brasil, que é a alimentação, e disse que precisava de entrar na segunda maior área de venda, a cosmética e beleza. Incentivou a esposa a entrar no ramo da beleza, para poderem ficar nos dois maiores ramos de consumo no Brasil. Abriram um salão de beleza em que Leandro ajudava aos fins de semana. Em 2015, Milena ficou, gravida e não e não pude mexer nos produtos de cabelo, onde Leandro teve 3 meses para fazer um curso intensivo de cabeleireiros para assumir o salão.
De forma semelhante ao percurso de Leandro, também Tiago, CEO da Lanchonete da Cidade em Ponta Delgada, representa o empreendedorismo migratório brasileiro nos Açores. Saindo do Brasil aos 18 anos para Lisboa, onde permaneceu 8 anos aproveitando laços familiares, Tiago conheceu sua esposa micaelense e estabeleceu-se nos Açores. Beneficiando de uma integração positiva pela família e comunidade local, abandonou a publicidade, inviável na região, para abrir sua lanchonete inspirada numa foto de comida brasileira que viu. Os desafios iniciais incluíram a escassez de matérias-primas como açaí, coxinhas e massa de pastel, que tinham de vir via Lisboa.

A mudança de Leandro para Portugal não foi de forma impulsiva, mas sim um resultado de uma análise cuidadosa do contexto económico do Brasil. Depois de ouvir na rádio, em 2014, que “todos os arquimilionários estavam tirando o seu dinheiro do Brasil para o exterior”, Leandro apercebeu-se de que uma crise política e financeira estava se aproximando.
Começaram a pesquisar qual seria o melhor país para ir no ramo da beleza e Espanha ganhava na pesquisa, mas começaram a ver os acordos entre países coirmãos, como o Brasil e Portugal. Pediram a Deus uma direção, e o seu filho mais velho pediu para ler o livro de Cristiano Ronaldo e quando leu, falou: “Pai, eu quero morar onde ele nasceu”. Chegaram a Portugal em 2018.
Leandro diz que o que te leva a sair do seu país é o mesmo motivo que te faz regressar caso este não aconteça. Quando chegou a Portugal, teve o seu propósito atingido no primeiro dia, veio buscar a Portugal segurança, poder andar na rua sem estar preocupado se vem um motoqueiro pela direita ou pela esquerda, poder abastecer a qualquer hora do dia.
Mas a sua chegada à ilha foi através de um amigo que mora na Terceira, que os deixou ficar na sua casa de tipologia T5, porque Leandro precisava de um lugar que não pagasse arrendamento durante 30 dias e seu amigo tinha a sua casa com espaço para Leandro e a sua família. Na Terceira fez pesquisa de campo, viu que os Açores tinham uma demanda lenta, mas uma demanda com mais necessidades.
Ao fazer uma palestra num salão de beleza, a dona do salão disse que tinha uma base em São Miguel, mas tinha de morar na ilha. Chegou a São Miguel em 27 de maio de 2018, começando a trabalhar no ramo da beleza. Depois começou a gerenciar a padaria Flora no Cabouco, junto com Milton Oliveira e depois abriu o seu próprio negócio.
Em 2025, recebeu um convite da direção do Parque Atlântico, para montar um projeto na parte externa. O seu projeto foi aceite e em 2026 abriu a rulote Eh Pa Food, onde está testando o que dá certo, o que não dá certo e o que tem de se melhorar.
Tal como Leandro testou seu conceito no Parque Atlântico, Tiago também alcançou sucesso com a Lanchonete da Cidade, diferenciando-se pela unicidade dos produtos brasileiros, pouco comuns em Portugal há uma década, e pela ausência de concorrentes diretos. A sua experiência prévia em restauração, tanto no Brasil quanto em Portugal, foi determinante para superar os obstáculos logísticos iniciais.
Leandro Barros destaca que as dificuldades, para ele, não devem ser vistas como obstáculos definitivos, mas como oportunidades de aprendizagem. Sempre que surge um problema, a sua primeira reação é perguntar “O que é que esta dificuldade me quer ensinar?”. Foi com essa mentalidade que enfrentou os primeiros desafios da sua vida em Portugal, sobretudo na adaptação ao alojamento e à escola dos filhos, aspetos que considera muito importantes e onde a comunidade brasileira e estruturas de apoio têm um papel essencial. Nesse contexto, refere a AIPA, associação dos imigrantes nos Açores, como uma plataforma fundamental para ajudar imigrantes, tanto na documentação como no acompanhamento de várias necessidades, destacando também o trabalho da Marina, que descreve como uma verdadeira aliada dos imigrantes. Leandro faz questão de sublinhar que sair do país de origem não significa, necessariamente, estar numa situação de miséria ou de fracasso, mas sim procurar melhores condições de vida, e no seu caso Portugal representou sobretudo segurança e paz, duas razões centrais para a mudança.
Apesar de reconhecer que a adaptação nunca é simples, identifica hoje a habitação como uma das maiores dificuldades para quem chega aos Açores, devido ao aumento dos preços de arrendamento e alojamento. No plano familiar, a adaptação alimentar também foi um desafio, sobretudo para os filhos e para a esposa, que inicialmente tinham dificuldade em aceitar a comida portuguesa. Leandro recorda, por exemplo, a resistência à sopa na escola, algo que no Brasil não faz parte do quotidiano com a mesma naturalidade. Com o tempo, porém, essas diferenças foram sendo superadas e a própria família acabou por se adaptar, ao ponto de hoje já consumirem alimentos que antes rejeitavam. Para Leandro, este processo mostra que as dificuldades fazem parte do caminho e que devem ser transformadas em aprendizagem e crescimento.
Os percursos de Leandro e Tiago ilustram como emigrantes brasileiros transformam a experiência migratória em empreendedorismo bem-sucedido nos Açores, superando desafios logísticos e culturais através de redes de apoio e identidade cultural diferenciadora.
No plano financeiro, Leandro explica que o início foi feito com muito esforço e com recursos limitados. Quando vieram do Brasil para Portugal, trouxeram cerca de 63 mil reais, numa altura em que a diferença cambial entre o real e o euro ainda era menos desfavorável do que é hoje. Esse valor foi essencial para cobrir despesas como renda, utensílios e alimentação, permitindo arrancar com o projeto. Ainda assim, sublinha que ninguém começa verdadeiramente do zero, mas sim com aquilo que tem. Por isso, juntaram dinheiro durante seis meses para criar uma reserva e dar início ao negócio, mesmo sem todas as condições ideais. Leandro reconhece que muitos projetos falham porque as pessoas esperam pelo momento perfeito para começar, quando na realidade é preciso avançar com o que existe e ir corrigindo o percurso ao longo do tempo. No seu caso, foi exatamente essa atitude que o permitiu construir um caminho sólido, mesmo com um investimento inicial muito baixo.










