Milhares de jovens LGBTQIA+ continuam a enfrentar a invisibilidade na sociedade, sofrendo de discriminação diariamente. Hoje, apresentamos a realidade de Ana, Iuri e Kiko num mundo real. A homossexualidade, é muitas vezes vista como uma escolha e não como um sentimento. Infelizmente, há quem tenda a inferiorizar pessoas homossexuais, tratando-as de forma discriminatória e diferente. Existem até comentários em que são consideradas “doentes”. Apesar da evolução ao nível da aceitação, esta é uma batalha que continua a ser travada dia após dia. Nesse sentido, entrevistámos duas pessoas que lidam com esta realidade, apenas por não corresponderem ao que é considerado “normal” aos olhos da sociedade.
O pensamento da Sociedade
Apesar da homossexualidade ser mais aceite aos olhos da população ainda há muito preconceito para se combater, principalmente com a chegada do partido CHEGA ao parlamento, que reforça o ódio e o preconceito para com estas pessoas. O facto dos media tentarem combater este preconceito com testemunhos reais abre um precedente para que a homossexualidade seja vista de outra maneira, porém, com os pensamentos retrógrados da sociedade essa notícia invés de ser algo que ajuda ao combate, acaba por ser algo desvalorizado e banalizado na sociedade de atualmente com comentários do género: “Como é que o jornalixo perde tempo com isto?”; “Ver um filho no caminho do inferno e adverte-lo por isso, agora é errado?”; “Olha o psicólogo ajuda”. Apesar destes comentários maldosos e sem noção não fica por aqui, além disso, ainda nos posts há milhares de pessoas a reagir com emojis de riso e gozo constante da notícia e dos pensamentos transmitidos na mesma.
Estas situações têm um grande impacto na vida dessas pessoas e por isso trouxemos testemunhos reais do que é viver nesta realidade preconceituosa.
A realidade contada por quem passa isto na pele

Ana Rego, 20 anos, estudante universitária na Universidade dos Açores, ilustra-nos os desafios enfrentados no quotidiano, tanto no espaço público como no privado, evidenciando tensões geracionais, conflitos familiares e processos de reconstrução pessoal.
Afirma que, nunca sentiu necessidade de esconder a sua relação com a sua atual namorada Matilde, no entanto, essa visibilidade não impede de que a sociedade frequentemente desvalorize ou distorça a natureza do relacionamento, em interações sociais. É comum que ambas sejam automaticamente classificadas como amigas, revelando uma dificuldade persistente em reconhecer casais do mesmo sexo.
Curiosamente, o cenário muda no ambiente digital, no contexto das redes sociais, Ana relata uma receção muito positiva, através de apoio e carinho, onde esta diferença mostra que o preconceito se manifesta de forma mais evidente nas interações presenciais. Ainda assim, as duas lidam de forma diferente com essas situações: enquanto Ana responde de forma assertiva, Matilde tende a adotar uma postura mais reservada.
Um dos momentos mais marcantes relatados durante a entrevista, ocorreu numa festa de aniversario de uma amiga de Ana, na ilha da Madeira onde uma família que estava no mesmo ambiente, aparentemente descontraído, rapidamente fez comentários homofóbicos quando surgiu uma conversa sobre o percurso académico de Matilde, ao ser sugerido que uma jovem de 17 anos conversasse com Matilde sobre o curso de Psicologia, a mãe da adolescente reagiu de forma inesperada e hostil, afirmando que não permitiria que a sua filha frequentasse a universidade “para virar lésbica”.
A declaração expôs um preconceito profundamente enraizado, associado à ideia de que a orientação sexual pode ser influenciada por contextos académicos. Entre os vários casos, Ana relata que um dos impactos mais profundos na sua vida, foi quando decidiu assumir a sua orientação sexual à família, sendo confrontada com uma reação extrema por parte do pai, que a expulsou de casa. A decisão foi acompanhada de um ultimato, tinha de escolher entre manter o apoio financeiro por parte do pai e abdicar da relação, ou escolher o amor.
Esta, optou por Matilde, numa decisão que marcou uma rutura total com a vida que conhecia, durante mais de um ano, foi afastada da mãe e do irmão mais velho, numa tentativa de isolamento promovida pelo pai através de controlo financeiro, sentindo-se “órfã de pais vivos”. A mudança foi radical: de uma vida confortável e financeiramente estável, Ana passou a enfrentar dificuldades económicas severas quando aos 19 anos viu-se sem recursos. Foi quando, recorreu ao apoio da Segurança Social, beneficiando do Rendimento Social de Inserção (RSI). Destaca a importância desse apoio, que considera essencial para garantir condições mínimas de sobrevivência, paralelamente aos estudos, teve de trabalhar e adaptar-se a uma realidade completamente diferente da que conhecia.
O ponto de viragem da situação surgiu com um episódio de saúde que levou Ana ao hospital, consequência do stress e da pressão emocional acumulada, a gravidade da situação levou aos pais de Ana a reavaliar a relação com a filha. Nos meses mais recentes, iniciou-se um processo de reconciliação, com um pedido de desculpas por parte do pai, que reconheceu os erros cometidos e admitiu que a sua reação foi motivada por medo e confusão, nomeadamente receio do julgamento social.
Como forma de reparação, os pais voltaram a apoiar financeiramente Ana e ofereceram-lhe uma casa, apesar da melhoria na relação, persistem algumas dificuldades, nomeadamente na aceitação plena do relacionamento, ainda, por vezes, referido como uma “amizade”. Para Ana Rego, o amor entre pessoas do mesmo sexo não difere de qualquer outro. A sua visão de vida assenta na autenticidade e na rejeição do julgamento externo, acreditando que o preconceito diz mais sobre quem o pratica do que sobre quem o sofre. A sua história é, simultaneamente, um retrato das dificuldades ainda presentes na sociedade contemporânea e um testemunho de resiliência, reafirmando a importância de viver de acordo com a própria identidade.

Iuri Garcia Lopes, numa entrevista online, partilha diferentes reflexões sobre a sua vivência e identidade. Para ela, a orientação sexual não é algo que se descobre de um dia para o outro. No seu caso, começou a percebê-la a partir dos comentários maldosos e depreciativos das outras pessoas. Como refere, “comecei a perceber a minha orientação sexual quando as pessoas começaram a percebê-la por mim”, identificando este momento como marcante na sua infância.
Iuri considera ainda que a palavra “aceitação” pode ser pejorativa, defendendo que não há necessidade de “aceitar”, pois a identidade simplesmente faz parte de quem somos. Também afirma que não existe um caminho único no que diz respeito ao género e à sexualidade. Natural do Rio Grande do Sul, no Brasil, um contexto que descreve como machista, racista, xenofóbico e LGBTfóbico, Iuri reconhece, no entanto, a sorte de ter crescido numa família compreensiva, que nunca criou obstáculos em relação ao seu género. Identifica-se como uma pessoa trans não-binária e utiliza os pronomes ela/dela. Ao longo da sua vida, passou por diferentes fases na construção da sua identidade, desde a bissexualidade, à homossexualidade, à identidade Queer e, atualmente, à identidade trans sempre com o apoio de familiares, amigos e professores. Há cerca de seis anos que se assume como uma pessoa trans não-binária, referindo nunca se ter identificado com as categorias tradicionais de homem ou mulher. O seu percurso foi também influenciado por leituras e teorias ligadas ao ativismo e aos movimentos sociais, que a ajudaram a compreender-se melhor e a reconhecer a legitimidade da sua vivência. Atualmente, frequenta um doutoramento em Estudos Feministas, com um projeto focado em pessoas não-binárias.
Um dos momentos mais marcantes da sua vida ocorreu durante a pandemia de Covid-19, quando decidiu comunicar às outras pessoas a sua identidade não-binária. Foi o isolamento que a levou a refletir de forma mais profunda e, num contexto de incerteza e negatividade. Iuri acredita que, nas gerações mais jovens, a homossexualidade é cada vez mais naturalizada e entendida como uma expressão de afeto, embora reconheça que essa aceitação varia consoante o contexto social e geográfico e pode ser fragilizada pelo crescimento de movimentos de extrema-direita. Critica ainda o facto de o discurso sobre estas questões ser, muitas vezes, superficial.
Ao longo da sua vida, sentiu várias vezes a necessidade de esconder relações em público por questões de segurança, embora tenha vindo a ganhar mais confiança em si própria. Ainda assim, observa que muitas pessoas com quem se relaciona continuam a sentir medo em demonstrar afeto em público. Desde a infância, a sua vida foi marcada por comentários homofóbicos, que inicialmente acabou por normalizar, mas que hoje já não aceita, valorizando a sua segurança e bem-estar. No dia a dia, enfrenta frequentemente situações de discriminação e insegurança, tanto na rua como na universidade, o que a leva, por vezes, a questionar-se.
Iuri deixa um conselho, incentiva as pessoas a permitirem-se explorar e compreender a sua orientação, procurando apoio em associações, espaços seguros e recursos disponíveis, especialmente online. Reconhece que este tipo de informação lhe fez falta durante a sua infância, embora saliente que cada pessoa tem o seu próprio tempo de descoberta. Por fim, ela destaca a importância de viver a orientação sexual de forma natural e afirma que todas as orientações são válidas e lembra que ninguém está sozinho. Considera também que o processo de descoberta pode ser positivo, especialmente pela possibilidade de encontrar outras pessoas com vivências semelhantes, contribuindo para a normalização e aceitação dessas experiências.

Francisco António Soares, mais conhecido pelo seu nome artístico: Kiko is Hot é um influenciador digital homossexual que tem 31 anos, o influenciador é bastante conhecido na era digital e foi a partir de 2011 que começou a ser mais ativo tanto no Youtube como também no Instagram. Mais tarde, tornou essa frequência também no Tiktok e é lá que combate muitas vezes a discriminação, fala de assuntos importantes para a sociedade e combate muitos homofóbicos com a sua ironia.
Apesar de ter nascido com o sexo biológico masculino Kiko identifica se como uma pessoa não-binária. Sofre bastantes preconceitos nas suas redes sociais como “gay”, “não devias ter vindo ao mundo” entre outros, Kiko lida com esses comentários de forma irónica, porém quando há medidas tanto no parlamento da república como fora dele ao qual ele acha despropositado é o primeiro a trazer a reflexão para cima da mesa e defendendo que todos somos iguais e todos merecemos os mesmos direitos.
Kiko defende que o ódio se combate sempre com o amor e é isso que ele demonstra constantemente nas suas redes sociais, como é possível ver nesta publicação.
Os seus testemunhos vêm provar que, no final, somos todos iguais e que todos merecemos respeito pelas nossas emoções e pelas nossas escolhas.










