A problemática do abandono e negligência de animais de companhia nos Açores continua a ser uma realidade preocupante, com impacto social, ético e de saúde pública. Apesar de alguns progressos nos últimos anos, este fenómeno mantém-se presente nas várias ilhas, mostrando que não é um caso isolado, mas sim um problema estrutural na região.
O abandono, principalmente de cães e gatos, é frequentemente reportado por associações de proteção e centros de recolha animal, que muitas vezes já se encontram sobrelotados e com poucos recursos. Segundo o relatório anual dos Centros de Recolha Oficial (CRO), citado pelo Diário dos Açores, o número de animais recolhidos diminuiu, passando de 2.858, em 2021, para 2.297, em 2024. Embora tenha ocorrido esta diminuição, isso não significa que o abandono tenha, de facto, diminuído, pois muitos casos continuam fora dos registos ou são assumidos por associações.

Existem vários aspetos alarmantes, muitos deles prendem-se aos relatos de profissionais de medicina veterinária. Segundo Carolina Figueiredo, enfermeira veterinária, muitos dos cuidados prestados a estes animais muitas das vezes não são suficientes. Estes profissionais lidam regularmente com situações extremas de negligência, identificam as questões que mais impactam esta problemática e até como recebem animais em condições muito graves de saúde e sofrimento. Importa sublinhar que muitos destes animais não são de rua, e têm donos, o que revela uma grande falta de responsabilidade e consciência por parte de alguns tutores.

As causas deste problema são várias. As dificuldades económicas são um fator importante, já que muitas famílias não conseguem suportar cuidados veterinários, quando necessários. Alguns destes cuidados são essenciais para que o animal tenha uma vida saudável e com qualidade, de acordo com o médico veterinário António Botelho. A falta de esterilização e o acesso dos animais à rua sem supervisão, também contribui para o aumento de ninhadas, que acabam frequentemente abandonadas. Para além disso, as mudanças de vida, como emigração, falta de condições de habitação e a desvalorização dos animais, que continuam a ser tratados como “seres vivos de segunda”, reforçam esta realidade e dificultam a criação de uma cultura de responsabilidade e cuidado para com os mesmos.
As associações desempenham um papel essencial, resgatam, tratam e promovem a adoção responsável de animais. No entanto, enfrentam grandes limitações, dependendo sobretudo de voluntariado e doações. Por isso, é fundamental reforçar o apoio a estas entidades. A aprovação e construção de um hospital veterinário seria um passo importante, pois este tipo de infraestrutura permitiria apoiar famílias com menos recursos, garantindo cuidados básicos aos animais e prevenindo situações de abandono por motivos financeiros.

No fundo, existe ainda uma cultura de abandono que normaliza certos comportamentos. Combater este problema passa por educar a população, promover e sensibilizar à responsabilidade na forma como se encaram os animais. Só com uma mudança de mentalidades será possível reduzir significativamente o abandono e a negligência de animais, nos Açores.










