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A cultura do abandono de animais de companhia nos Açores 

A problemática do abandono e da negligência de animais de companhia nos Açores continua a ser uma realidade preocupante, com impacto social, ético e de saúde pública. Apesar de alguns progressos registados nos últimos anos, este fenómeno mantém-se presente em várias ilhas, o que indica que não se trata apenas de situações isoladas, mas de uma questão que continua a exigir atenção na região.

Gato que teve as orelhas amputadas após maus cuidados. Foto: Carolina Medeiros

O abandono, sobretudo de cães e gatos, é frequentemente sinalizado por associações de proteção animal e centros de recolha animal. Estas entidades, segundo relatos recorrentes no setor, enfrentam muitas vezes situações de sobrelotação e falta de recursos, o que dificulta uma resposta adequada aos animais recolhidos. Segundo o relatório anual dos Centros de Recolha Oficial, citado pelo Diário dos Açores, o número de animais recolhidos diminuiu, passando de 2.858, em 2021, para 2.297, em 2024.

Apesar desta diminuição, os dados devem ser lidos com cautela. A redução no número de animais recolhidos não significa, por si só, que o abandono tenha diminuído na mesma proporção. Há casos que podem não entrar nos registos oficiais, nomeadamente situações acompanhadas por associações, cidadãos ou redes informais de apoio animal.

Há vários aspetos alarmantes nesta problemática, muitos deles associados aos relatos de profissionais de medicina veterinária. Segundo Carolina Figueiredo, enfermeira veterinária, muitos dos cuidados prestados a estes animais nem sempre são suficientes. Estes profissionais lidam regularmente com situações graves de negligência e identificam algumas das questões que mais impactam esta problemática, incluindo a chegada de animais em condições muito debilitadas de saúde e sofrimento.

Importa sublinhar que muitos destes animais não são de rua e têm tutores, o que levanta questões sobre responsabilidade e consciência relativamente aos cuidados necessários a um animal de companhia. 

Gato que vivia em situação de rua após ser resgatado. Foto: Carolina Medeiros

As causas deste problema são várias. As dificuldades económicas são um fator importante, já que muitas famílias não conseguem suportar cuidados veterinários quando estes são necessários. Alguns destes cuidados são essenciais para que o animal tenha uma vida saudável e com qualidade, de acordo com o médico veterinário António Botelho.

A falta de esterilização e o acesso dos animais à rua sem supervisão também contribuem para o aumento de ninhadas, que acabam frequentemente abandonadas. Além disso, mudanças de vida, como emigração e falta de condições de habitação, bem como a desvalorização dos animais, por vezes tratados como “seres vivos de segunda”, reforçam esta realidade e dificultam a criação de uma cultura de responsabilidade e cuidado.

As associações desempenham um papel essencial no resgate, tratamento e promoção da adoção responsável de animais. No entanto, enfrentam grandes limitações, dependendo sobretudo de voluntariado e doações.

Por isso, é importante reforçar o apoio a estas entidades. A aprovação e construção de um hospital veterinário poderia representar um passo relevante, uma vez que este tipo de infraestrutura permitiria apoiar famílias com menos recursos, garantir cuidados básicos aos animais e prevenir situações de abandono associadas a dificuldades financeiras.

Ninhada de cães resgatada após ser encontrada em situação de abandono. Foto: Carolina Medeiros

No fundo, ainda persistem comportamentos que podem contribuir para a normalização do abandono. Combater este problema passa por educar a população, promover a sensibilização e reforçar a responsabilidade na forma como os animais são encarados.

Só com uma mudança gradual de mentalidades será possível reduzir de forma significativa o abandono e a negligência de animais nos Açores.

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