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O aluguer da saudade: transformar quatro paredes em lar

Valdênia é uma das estudantes da Universidade dos Açores que convive com a saudade frequente. Foto: Anastasia Zinoveva

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No meio do Oceano Atlântico, o sentimento de isolamento e solidão constrói-se ao longo das tradições geracionais de adaptação ao ambiente natural e de vivência em simbiose com o oceano. Vulcões indomáveis e a fragilidade da existência da ilha ensinou a população Açoriana como lidar com a saudade pelos entes queridos que ficaram no Continente. Agora, centenas de anos depois, alunos deslocados da Universidade dos Açores precisam se adaptar a estes obstáculos desafiadores num curto de espaço de tempo, a sua licenciatura. Como se devem sentir? deixar a sua casa e vir para o lugar mais longínquo da Europa para fazer novos amigos e ter novas experiências? Nós falamos com estudantes da UAc e analisamos estatísticas recentes para descobrir.

A Barreira Económica

Antes sequer de um estudante poder começar a sua jornada, eles têm de enfrentar a severa realidade económica de Ponta Delgada. O mercado imobiliário nos Açores tem sofrido uma mudança radical após o período do COVID, e agora a questão da habitação para os estudantes deslocados coloca a sua educação em jogo.

Desta forma, a renda média por um quarto para um estudante em Ponta Delgada varia entre 300 a 600 euros, sendo o preço médio 400 euros. [RTP Açores, Idealista] Isto representa uma enorme elevação de mais de 50,5% em apenas um ano, o maior crescimento do país. [Euronews] Com mais de 57% dos estudantes descolados provenientes do Continente e da Madeira, e mais de dois mil estudantes de outras ilhas, a procura supera largamente a oferta do mercado. [Portal do Governo Açoriano].

Experiência internacional: a resiliência da Valdênia

Valdênia tem consigo objetos que fazem memória à casa para combater a distância. Foto: Anastasia Zinoveva

Para Valdénia Rodrigues, uma estudante brasileira de 24 anos do Mestrado de Psicologia Clínica e da Saúde na UAc, “casa” é o sentimento de segurança e conforto em vez do endereço físico.

“Meu deus, é tão pequeno!”

Essa foi a sua primeira impressão do seu quarto na Residência Universitária das Laranjeiras, a vista do oceano pela sua janela compensou a falta de metros quadrados.

A mala de viagem cor de rosa da Valdénia, coberta de autocolantes memoráveis, viajou pelo Atlântico, e ela teve de colocar a sua vida inteira dentro dela: com carinho, ela lembra-se do laço com o seu nome que foi escrito pela sua avó, a quem ela gostaria de trazer a São Miguel pelo menos uma vez.

“Ela é engraçada e faz comida boa,”

A Valdénia menciona, no entanto, que a sua avó se preocupa muito com a sua neta, levando a vida na ilha demasiado a sério.

Além da mala rosa, Valdénia destaca o carinho que sente por outros objetos no seu quarto. Assim como, a primeira coisa que levaria consigo em caso de emergência seria a sua pasta plástica que contém, além de documentos, desenhos dos seus primos e cartas e fotos dos seus amigos. Valdénia compartilhou a sua experiência de trabalho no Sertão da Paraíba, Brasil, onde em meio à seca notou a abundância de cactos. Isso a inspirou, dando-lhe a ideia de resiliência. Crescer e florescer independentemente das circunstâncias. E tornou-se uma metáfora da sua identidade desde então.

Adaptabilidade e resiliência fizeram com que Valdénia se acostumasse rapidamente a São Miguel. No verão, ela já sente falta dos novos amigos dos Açores, e uma das coisas que adotou daqui o bolo lêvedo, tornou-se o pão favorito dela e da família. Valdénia destaca que sua identidade cultural não mudou depois que se mudou para uma ilha.

“Não vou deixar de ser brasileira.”

Pelo contrário, esse desafio de estudar no exterior proporcionou-lhe um amadurecimento emocional e uma maior capacidade de apreciar a cultura local.

A ponte entre as ilhas: a casa dupla da Martina

Enquanto a Valdénia atravessou os atlânticos para se encontrar em São Miguel, Martina Ponta Garça, uma estudante de Comunicação e Relações Públicas de 20 anos, teve apenas de atravessar uma pequena parte do oceano entre a sua casa a ilha Terceira e Ponta Delgada. No entanto, a mudança de território foi simultaneamente real. Para a Martina, a adaptação ao “Movimento da Cidade” foi difícil para ela, pois estava acostumada à “paz do campo”, onde se ouvia constantemente pássaros e animais.

A vida de Martina é entre-ilhas, para cumprir o sonho da licenciatura. Foto Anastasia Zinoveva

Tal como qualquer estudante deslocado, Martina tem uma lembrança da sua família no seu quarto: a primeira coisa que ela desembrulhou assim que se mudou foi a foto da família.

“É muito memorável e como é óbvio, tenho saudades deles.”

Ela explica, que foi um passo essencial para que o seu novo quarto parecesse “certo”. Ao contrário de muitos que têm uma transição tranquila, Martina teve que “se desenrascar” sozinha, mudando-se da casa da sua madrinha para a residência universitária e, devido à falta de condições no espaço, para o seu quarto atual.

Quando questionada sobre a sua casa, Martina percebeu que este termo adquiriu um duplo significado para ela. Agora, após os primeiros meses de adaptação e saudade, ela liga Ponta Delgada à sua vida do dia-a-dia, rotinas e a primeira liberdade enquanto adulta, de lar, embora ainda considere a Terceira o seu lar “número um”. Para ajudar a atravessar a ponte entre as ilhas, a Martina depende do seu telemóvel, na realidade moderna, um estudante deslocado só pode contar com essa tela para se sentir conectado à sua família do outro lado do oceano.

Mais do que 4 barreiras

As histórias da Valdénia e da Martina não são casos isolados, mas sim a realidade quotidiana de milhares de estudantes descolados da Universidade dos Açores. Fazem parte de um grupo demográfico em que a maioria dos estudantes vem de fora da ilha, com mais de 2700 pessoas a deslocarem-se entre ilhas ao abrigo de programas como o “Regressa a Casa”. Eles absorvem a cultura local e adaptam novas tradições e experiências, aprendendo a combiná-las com a sua própria identidade sem a perder por completo.

Tal como os primeiros colonos açorianos, os estudantes deslocados enfrentam um obstáculo gigantesco, o isolamento e a saudade. Com uma única exceção, o preço das “quatro paredes”, que incluem não só espaço, mas também conforto e tranquilidade. Mas é evidente que, no final, não se trata apenas de transações financeiras. Desde a mala cor de rosa, cheia de autocolantes, e do cacto brasileiro que sobreviveu ao vento, à fotografia de família trazida da Terceira, estas “quatro paredes” transformam-se. Esses estudantes provam que, embora o oceano e a renda possam ser difíceis de lidar, o “lar” é algo que se carrega na bagagem e se recria por si mesmo.

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