
Nos dias de hoje, o eco da baleação parece desvanecer-se na memória coletiva, remetido a um passado de contornos difusos e importância secundária. No entanto, enquanto na Ilha do Pico esta tradição se cristalizou como um património vivo, cultural e desportivo, na Ilha de São Miguel a herança baleeira aguardava, até há pouco, o momento do seu justo reencontro com a história.
Recebidos por Carlos Carreiro, Presidente do Clube Naval de Ponta Delgada (CNPDL), fomos guiados por um projeto que nasce da vontade de resgatar uma herança que moldou profundamente a identidade açoriana entre os séculos XIX e XX. A criação de uma “Casa de Botes” surge, assim, como um esforço de revitalização histórica e, simultaneamente, como uma aposta estratégica numa vertente desportiva que já floresce nas ilhas do canal (Pico e Faial).
Durante décadas, a faina baleeira (prática da pesca da baleia) foi o pulsar económico e social das nossas ilhas. São Miguel não pode, nem deve, continuar alheia a um passado que lhe é intrínseco. Hoje, o desígnio passa por recuperar não a atividade venatória em si, mas o legado que ela nos legou: a mestria técnica dos botes, as memórias dos antigos baleeiros, o espírito de companha e o simbolismo cultural. A prática desportiva, já consolidada no Pico, surge agora como a ferramenta ideal para reaproximar São Miguel desta identidade adormecida.
A Casa de Botes, embora ainda fechada ao grande público para visitas regulares, assume-se como um santuário onde a tradição e a modernidade convergem. Mais do que acolher as embarcações, o projeto visa formar novas tripulações, dinamizar treinos e incentivar a participação em regatas. É a metamorfose de um passado de dureza numa prática desportiva que valoriza a cooperação, a resistência e a comunhão com o mar.
Esta iniciativa de Carlos Carreiro materializa-se já na presença de três botes emblemáticos: um exemplar micaelense, do antigo baleeiro João Luís Mariano, devidamente guarnecidos com os seus apetrechos tradicionais. O espaço será enriquecido com uma componente museológica e interativa, incluindo espólio fotográfico e um estúdio dedicado à projeção de documentários históricos e registos da atividade contemporânea do Clube.
Os restantes dois botes, com uma estrutura típica da ilha do Pico, foram construídos de forma propositada para serem utilizados na prática da regata baleeira.

Num convite aberto à comunidade, o Presidente do Clube Naval apela a que todos se juntem às companhas, seja para experimentar o remo ou para simplesmente assistir, aos sábados, a esta prática. Para muitos, este projeto representa mais do que um simples desporto: é uma ponte entre gerações, assegurando que o testamento dos nossos antepassados seja entregue, com orgulho, às mãos dos mais jovens.
Carlos Carreiro, termina sublinhando que vão realizar a 2.º edição da regata dos botes baleeiros em 2026 no mês do seu aniversário no mês de junho, no qual celebrarão 125 anos de existência.










