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Folclore nos Açores: Grupo Folclórico de São Miguel

O Grupo Folclórico de São Miguel é o mais antigo da ilha e carrega mais de 70 anos de história. A origem remonta ao início dos anos 50 do século XX. A primeira apresentação oficial aconteceu a 25 de julho de 1955, no Parque Terra Nostra, nas Furnas, durante o casamento de Dona Maria Pia, filha do Visconde de Botelho. O evento reuniu muitas pessoas e colocou o grupo, desde cedo, em contacto direto com o público.

Ao longo das décadas, o grupo manteve um trabalho contínuo de recolha e preservação de práticas culturais. As músicas, as danças e os trajes não surgem por acaso. São resultado de investigação e de um esforço deliberado de manter vivas tradições que, sem este tipo de iniciativa, tenderiam a desaparecer.

O folclore, no seu sentido mais direto, refere-se a esse conjunto de expressões culturais transmitidas entre gerações. A palavra vem do inglês, da junção de folk (povo) e lore (tradição). No caso de São Miguel, esse conceito deixa de ser abstrato. Ganha forma nas atuações, no repertório e na continuidade de um grupo que transforma conhecimento em experiência acessível a quem assiste.

Vitor Melo e a sua estimada viola da terra. Fotografia: Martina Ponta Garça

Vítor Melo tem 82 anos e praticamente toda a sua vida está ligada ao Grupo Folclórico de São Miguel. Entrou aos 12 anos, numa altura em que o grupo ainda dava os primeiros passos. São cerca de 70 anos de ligação contínua, atravessando gerações e mudanças, sempre com o mesmo compromisso.

Foi no grupo que encontrou espaço para crescer. Começou como bailarino, numa fase em que a dança fazia parte do seu quotidiano. Tocava guitarra elétrica, mas acabou por aprender viola da terra, instrumento que ainda hoje integra nas atuações. A relação com o folclore foi-se transformando, mas nunca se quebrou.

A história pessoal cruza-se com a do próprio grupo. Foi ali que conheceu a sua companheira. Estão casados há cerca de 60 anos. Entre ensaios, atuações e viagens, construiu-se uma vida que mistura tradição, afeto e permanência.

Alda Freitas está no Grupo Folclórico de São Miguel há 27 anos. Entrou para tocar viola, instrumento que aprendeu ainda aos 15 anos com o Sr. Mário Rangel, uma das referências do grupo. Desde então, construiu um repertório sólido e uma relação direta com a música tradicional.

Toca com facilidade as várias peças do grupo, mas faz distinções claras. O “Tanchão” não a cativa, pela lentidão. Já a “Chamarrita” surge no extremo oposto: ritmo rápido, mais leve, mais próximo daquilo que a motiva em palco.

Gosta de tocar, mas não se vê no papel de formadora. Assume isso sem rodeios. O grupo, por outro lado, encontrou uma forma de garantir continuidade. Antes dos ensaios gerais, há um momento dedicado à aprendizagem da viola da terra. Vítor Melo conduz esse espaço, aberto a quem quiser começar. É ali que o conhecimento circula e se mantém vivo.

O Grupo Folclórico de São Miguel reúne hoje cerca de 30 elementos. Mantém-se aberto a novos participantes, numa tentativa clara de garantir continuidade. Não é apenas uma questão de número. É uma forma de assegurar que práticas, músicas e gestos não ficam presos a uma geração.

O percurso não foi estável. Houve momentos de falta de tocadores, de homens, de mulheres. Houve também limitações estruturais que continuam por resolver. O grupo não tem sede própria. Ensaiou, durante anos, em espaços emprestados. Os trajes continuam guardados a vários quilómetros de distância, o que condiciona a logística e o próprio funcionamento.

Apesar disso, consolidou-se como um grupo coeso. Há pares formados, músicos experientes e disponibilidade para ensinar quem chega. Esse ponto é relevante. Sem transmissão, o folclore deixa de existir enquanto prática.

A leitura que surge da própria comunidade é direta. O folclore é reconhecido como património cultural, mas a promoção não acompanha esse estatuto. Nos Açores, onde a identidade cultural tem um peso evidente, essa distância entre reconhecimento e investimento levanta um problema concreto: o risco de continuidade passa a depender mais do esforço dos grupos do que de uma estratégia estruturada.

Vítor Melo deixa-nos uma mensagem:

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