
A fixação dos jovens nas ilhas dos Açores tem sido um desafio crescente. A procura por oportunidades de estudo e trabalho leva muitos a sair das ilhas onde vivem. Conversamos com quatro pessoas que vivem esta realidade, que se torna cada vez mais uma tendência no arquipélago. As suas histórias e experiências ajudam a perceber melhor os desafios e as escolhas dos jovens açorianos. Quais serão as razões que os fazem sair?
Com o passar dos anos, é notável que o arquipélago tem sofrido com a imigração dos jovens. Por ilha, verifica-se que em todas residem mais idosos do que jovens, à exceção de São Miguel. No entanto, todas as ilhas açorianas têm um índice de envelhecimento inferior à média nacional. A ilha Terceira é a mais envelhecida da região com 405 idosos por cada 100 jovens.
Madalena Borges, de 21 anos, que teve de se deslocar da ilha Terceira para São Miguel para realizar os seus estudos. Apesar de na ilha Terceira haver um polo universitário, Madalena acredita que os jovens sentem necessidade de sair da ilha porque as oportunidades de estudo e de trabalho são mais limitadas. Além disso, diz que o mercado de trabalho nas ilhas é mais pequeno e, por vezes, oferece menos variedade de profissões ou salários mais baixos, levando muitos jovens a procurar melhores oportunidades fora. Apesar destes contrastes, a jovem afirma que pretende voltar à ilha quando terminar os seus estudos: “Tive de sair da ilha para estudar e só penso em sair de novo caso não arranje trabalho na minha área. Existem mais motivos que me fazem querer ficar, como família, a tranquilidade a qualidade de vida e a ligação à terra onde cresci. A decisão dependeria muito das oportunidades que surgirem no futuro.”
O Presidente da Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores, Luís Garcia, destaca a importância de criar condições que atraiam e fixem os jovens nos Açores, com um foco especial na ilha do Faial. “Garantir que os jovens escolhem ficar ou regressar é um compromisso que construímos com visão e coragem para assegurar o futuro da região. A UAc e o polo da Horta, são projetos que contribuem para atrair e fixar jovens e que reforçam a nossa ambição de fazer do Faial um centro de conhecimento com impacto regional e global.”
Já a jovem faialense Carolina Ramos, que atualmente estuda Medicina em Lisboa, destacou a importância da criação de “maiores oportunidades, maior investimento na educação e na inovação.” Diferente dos outros entrevistados, acredita que não há falta de emprego, mas sim, limitações dentro das próprias organizações.
Não são apenas os estudos que fazem com que os jovens saiam das ilhas, muitos destes vão em busca de melhores condições de vida. Este é o caso de Vanessa Medeiros, de 33 anos, nascida e criada em São Miguel, e que atualmente reside e trabalha em Manchester, Inglaterra. Saiu de São Miguel há 8 anos e a família era a única coisa que ainda a mantinha na ilha, mas o verdadeiro motivo que a fez tomar a decisão de sair, foi a falta de oportunidades dadas pelas instituições, mesmo tendo um curso superior. Vanessa reforça esta ideia referindo “para além de que os jovens cada vez mais investem na sua educação e de certa forma não querem ficar a trabalhar em trabalhos de ordenado mínimo para o resto da vida”.

Vergílio Resendes, de 20 anos, deixou São Miguel quando tinha apenas 18 anos, em busca dos seus sonhos. Apesar de sentir falta das paisagens naturais, da qualidade de vida marcada pela ausência de grandes congestionamentos e pelo ritmo mais calmo do quotidiano, tornou-se claro que, para que Vergílio conseguisse evoluir profissional ou academicamente em áreas que exigem recursos inexistentes na ilha, a saída acabou por ser quase inevitável, afirmou o mesmo: “Para muitos jovens açorianos que aspiram a crescer e alcançar objetivos mais ambiciosos, surge frequentemente a necessidade de sair da ilha para ter acesso a experiências, meios e oportunidades que localmente ainda são escassos.”
O jovem acredita que um dos maiores desafios da vida nas ilhas prende-se com a sua localização geográfica. Nas ilhas, os residentes estão naturalmente mais limitados em termos de mobilidade e acesso a oportunidades, pois mesmo que um estudante resida em Coimbra e estude em Lisboa, por exemplo, sempre tem a possibilidade de se deslocar dentro do país com maior facilidade, ao contrário dos jovens açorianos que têm de viajar de avião.
Os custos tornam-se demasiado elevados quando comparados os jovens do continente com os jovens açorianos, criando um obstáculo significativo à deslocação e à igualdade de acesso. Apesar destes fatores, o Governo Regional dos Açores, bem como as Câmaras Municipais, têm ajudado os jovens deslocados no que toca a apoios financeiros. Segundo Mónica Seidi, a atribuição de Bolsas de Estudo a estudantes do Ensino Superior reflete o compromisso do Governo dos Açores com a promoção da igualdade de oportunidades no acesso ao ensino, contribuindo para a redução das desigualdades sociais e para a valorização das qualificações académicas dos jovens açorianos. Desde 2021, já foram atribuídas 1.800 bolsas de estudo, representando um investimento global de 4,950 milhões de euros. O Governo dos Açores reafirma, assim, a sua aposta contínua em políticas públicas que promovam o sucesso académico, a coesão social e o desenvolvimento sustentável da região.
A dificuldade em fixar jovens nas ilhas dos Açores continua a ser um dos grandes desafios para o futuro da região. Entre a procura por melhores oportunidades de emprego, melhores condições de vida e capacidade de desenvolvimento profissional, muitos acabam por procurar caminhos fora do arquipélago. Perante este cenário, torna-se essencial criar condições que permitam aos jovens construir o seu projeto de vida nas ilhas, garantindo não só a renovação geracional, mas também a vitalidade social e económica da região.




