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O preço do paraíso: o impacto social do turismo nos Açores

Ponta Delgada tem se reconfigurado para atender períodos turísticos. Foto: Divulgação / Câmara Municipal de Ponta Delgada

Nos últimos anos, os Açores têm vindo a ser cada vez mais visitados, trazendo mudanças para a região, como o surgimento de negócios direcionados ao turismo e que dele dependem. No entanto, no mês de janeiro de 2026, o número de visitantes diminuiu, levando a que 70% dos alojamentos locais não tivessem qualquer reserva, segundo João Pinheiro, presidente da Associação de Alojamento Local dos Açores (ALA), com base nos dados oficiais da atividade turística relativos a janeiro de 2026, divulgados pelo Serviço Regional de Estatística dos Açores (SREA). 

Se a preocupação por estes números já ligava o alerta, também o fecho da operação da Ryanair, companhia aérea low cost, para Ponta Delgada, a 29 de março, preocupa quem depende do turismo diariamente, já que grande parte das ligações passam, agora, a depender apenas das companhias aéreas como a TAP Air Portugal e a SATA Air Açores, associadas a preços mais elevados. Lorenzo Estrera, refere que, com o fim dos voos baratos, tem sentido uma menor presença de turistas, acrescentando que estas companhias são “muito caras para a maioria das pessoas”.

As primeiras consequências já se fazem notar no centro de Ponta Delgada. Para vários empresários locais, a diminuição de voos low cost pode traduzir-se numa redução no número de visitantes, sobretudo do comércio e da restauração, pois consideram que a ausência destas ligações poderá afastar turistas europeus que procuram viagens mais acessíveis, provocando uma quebra no movimento turístico e nas vendas.

Ainda assim, há quem destaque a possibilidade de compensação com novas rotas internacionais. Bruno Tavares lembra que “abriram novas rotas para cá, umas do Canadá e outras dos Estados Unidos”, embora admita que a redução de voos possa ter algum impacto.

Impacto do turismo nos negócios

Casa Cristal. Foto: Lara Furtado

Com a descida do turismo em janeiro, muitos estabelecimentos sofreram com as consequências. Mariana Cunha, empregada da loja de artesanato Maviripa afirma que a ausência do turismo teve impacto sobretudo no comércio tradicional “Foi uma mudança muito significante e não só impactou a nossa empresa, mas como o comércio tradicional aqui em Ponta Delgada, o mês de janeiro foi mesmo um mês “morto” com poucas vendas.” Lorenzo Estrera, empregado de mesa no Louvre Michaelense partilha a mesma opinião. Comenta que o restaurante não recebeu os clientes que era habitual nesse mês comparado aos anos anteriores “Em algumas noites fechámos muito cedo porque não tínhamos clientes. Normalmente fechamos às 23h, mas começamos a fechar pelas 21h30.”

Já Bruno Tavares, afirma que na Casa Cristal não foi possível notar essa diferença, pois a loja vende artigos religiosos que não despertam grande interesse aos turistas. De todos os entrevistados, apenas Bruno acredita que o seu negócio sobreviveria sem o turismo, pois a maioria dos seus clientes são habitantes locais. Acrescenta que “dependeria da juventude que depois é que tinha de comprar os nossos artigos”, uma vez que o público-alvo da loja é envelhecido.

Aldo Castanheira, proprietário do Hostel Pé Direito, afirma que se continuar assim, vai precisar reformular o seu negócio. “O meu negócio está direcionado para os turistas. Teria de transformá-lo para sobreviver.”

 

Preços e economia local

Louvre Michaelense. Foto: Alexandrina Correia

A verdade é que o aumento do turismo na região trouxe um impacto direto na economia, a nível comercial e pessoal. Contudo, o aumento dos preços varia de setor para setor. Enquanto Bruno Tavares diz que “no nosso caso específico que é a venda de artigos religiosos e arte decorativa não aumentamos os preços.” Já Lorenzo Estrera considera que alguns negócios aproveitam a grande procura turística: “às vezes, digo que aumentam os preços para ter ainda mais lucro, aproveitando-se dos turistas com mais dinheiro que estão dispostos a pagar mais.”

No entanto, há quem defenda que a inflação dos preços não é explicada apenas pelo crescimento do turismo. “Eu acho que não é só dado ao turismo que tem acontecido essas inflações, mas isto tem todo um contexto por trás, por exemplo, estamos a passar por uma guerra que tem um impacto significante nas subidas dos preços”, explica Mariana Cunha.

Numa perspetiva pessoal, em geral, os entrevistados apontam para a evidente inflação na restauração, hotelaria e habitação. “Noto quando quero ir almoçar ou jantar fora, aí sim noto diferença nos preços especialmente nessa área da restauração e hotelaria”, relata Bruno Tavares. Já Aldo Castanheira acrescenta que “com o aumento dos alojamentos locais e com o aumento do turismo subiram os preços, principalmente das habitações e dos restaurantes”. O que preocupa moradores locais como Virgínio Sousa que, ao espelhar uma posição de muitos residentes da Ilha, refere que “estamos a pagar o mesmo que o turista está a pagar”.

 

Impacto social do turismo

Hotel Talismã. Foto: Lara Furtado

Bruno Tavares partilha do mesmo pensamento. Para ele, o turismo “afetou a vida dos locais em todos os aspetos”, destacando o aumento dos preços, que dificulta “nomeadamente a poder comprar casa, alugar um quarto ou comprar um carro”. Tânia Correia, rececionista no Hotel Talismã, considera que o impacto é simultaneamente positivo e negativo, pois “os locais já não têm possibilidade de aceder a certos serviços, porque à medida que o turismo foi surgindo os preços foram subindo e o mercado foi mudando.” Por outro lado, considera que o turismo contribui para a economia regional.

Os habitantes sentem que a identidade da ilha se está a perder. Mariana Cunha refere também mudanças em espaços naturais, dando o exemplo da Lagoa das Furnas, onde anteriormente não se pagava e que, devido ao turismo, passou a ter custos. Lorenzo Estrera sublinha problemas como o aumento do tráfego e limitações de acesso, mencionando que “na Lagoa do Fogo só os residentes é que podem descer nos seus carros. Os restantes visitantes têm de apanhar um autocarro.” Embora o turismo traga benefícios para a região, muitos residentes sentem que o crescimento do setor tem vindo a alterar a sua comodidade.

Numa época em que as condições sociais e económicas não são as mais favoráveis, a quebra do turismo faz-se notar nos mais variados setores na região, pondo em causa o emprego, os negócios e o quotidiano dos açorianos.

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